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sexta-feira, setembro 22, 2006

Um alfabeto fonológico para a língua cabo-verdiana; uma visão pouco transdisciplinar

Durante a prestação televisiva ilustrada no artigo anterior, veio ao de cima a questão do uso do "Alfabeto Unificado Para a Escrita do Cabo-verdiano" conhecido pelo acrónimo ALUPEC. Eis um extracto da peça televisiva:



Penso que a argumentação atrás do uso de um alfabeto fonológico, teria toda a validade no caso cabo-verdiano se:
  1. A língua cabo-verdiana não tivesse acentuadas diferenças dialectais (ver o ponto "diferenças entre os crioulos" do artigo da Wikipédia)
  2. A ideia fosse a substituição da língua portuguesa pela cabo-verdiana (situação de monolinguismo)
Porém, fala-se de fomentar o bilinguismo. Neste caso, a citada argumentação cai por terra, pois, se o cidadão cabo-verdiano alegadamente tem dificuldades de escrita do português por este possuir várias grafias para o mesmo som, como é que esta situação iria melhorar, se o treinamos para escrever com o ALUPEC, a outra língua que (numa situação bilingue de línguas irmãs) iria ser em simultâneo ensinada?

Eis uma questão que o pensamento disciplinar não encara. A visão TransD olhará o caso da escrita do cabo-verdiano e da adopção de uma variante padrão, pelas suas diversas facetas (cultural, linguística, psicológica, geográfica, histórica, "diglóssica", disléxica, prática,...etc); não como uma justaposição de abordagens, mas como um resurgir de novas ideias e soluções. Uma "Emergência" para um outro nível de realidade !

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Eu já tinha referido essa situação em tempos em www.nosmedia.wordpress.com e a minha opinião não diverge muito desde esse tempo até agora... Continua a pensar que é prematura pensar no crioulo como uma lingua oficial até porque existe uma "regionalização" do próprio dialecto o que torna dicicil tomar uma única como referência, seria como dizer que só os carros a gosolina é que poderiam andar na estrada (algo inconcebivel), portanto... é necessário pensar e pensar num patriotismo lógico, erámos uma colónia, conseguimos a nossa independência como país e como uma cultura uúnica no mundo, será que não estaremos a exagerar querendo oficializar o croulo á força e sem estarmos preparados ??

www.studanti.wordpress.com

segunda-feira, 02 outubro, 2006  
Anonymous Marciano Ramos Moreira said...

Não concordo que se deva escolher o alfabeto de base etimológica para a língua cabo-verdiana por causa da (1) existência de variantes e (2) da maior semelhança entre alfabetos cabo-verdiano e português propiciar melhor aprendizagem do alfabeto português.

Não concordo pelas razões que a seguir exponho.

I) Com relação a variantes:

a) sendo certo que normalmente em todas as nações há variantes - fosse relevante este argumento, não haveria alfabeto fonológico no mundo;

b) não há lógica atrás desta teoria (permitir que pessoas leiam de forma diferente o que escrevem da mesma forma) – senão vejamos:
i) Se as formas diferentes de pronunciar uma mesma palavra ganharam cidadania - o lógico seria permitir que haja consistência entre a pronúncia e a escrita de cada variante (pois é sempre mais fácil para quem diz binho escrever binho), não sancionar divergência entre a escrita e a pronúncia (pois é sempre mais difícil para quem diz binte escrever vinte).
ii) Sendo certo que a língua serve essencialmente para a comunicação oral, resulta que
ou as variantes são inteligíveis para os utilizadores de variantes diversas (e neste caso não só as pronúncias diferentes são inteligíveis aos utilizadores de diversas variantes, mas também as escritas diferentes consistentes com as respectivas pronúncias também seriam inteligíveis);
ou as variantes são de tal forma diferentes que não estaremos perante variantes, mas sim línguas (aí nada há a fazer-se - será falaciosa qualquer pretensão de harmonização através da escrita).
iii) Se as pronúncias diferentes não ganharam cidadania – aí a opção por um alfabeto de base fonológica seria eficaz no combate a essa diferença não permitida.

c) Com relação ao português, está comprovado que após a recaída por altura do Renascimento, o respectivo alfabeto não conheceu outra evolução que não fosse uma constante aproximação dum alfabeto de base fonológica, e consequente afastamento progressivo dum alfabeto de base etimológica, não obstante à afirmação concomitante das variantes nomeadamente das diversas colónias, hoje países;

d) De tão desprovida de lógica é, pois, esta teoria, que ela só pode resultar de uma tentativa desesperada de conter a onda imparável da libertação da escrita portuguesa das amarras da etimologia criadas por altura do Renascimento, onda esta agora reforçada com um Brasil, por um lado, muito menos dado à escrita ilógica e, por outro lado, cada vez mais influente.

II) Com relação à semelhança entre alfabetos:

a) O que está provado cientificamente é que o domínio prévio da língua materna contribui para um maior sucesso no estudo subsequente de outras línguas e não apenas da língua cujo alfabeto seja semelhante ao da língua materna;

b) Maior aproximação linguística frequentemente significa maior risco de interferências linguísticas – se calhar um português comete mais erros ortográficos ao escrever o espanhol do que quando escreve francês...

c) No limite, aceitando a tese de que a semelhança facilita, a questão que se coloca é se a vantagem dessa facilidade é maior do que a desvantagem de ter que enfrentar duas escritas desprovidas de lógica em vez de uma apenas (a portuguesa);

d) Se hoje mais de 95% do que um cabo-verdiano residente escreve provavelmente é em português, nada garante que a situação não será inversa daqui a 100 anos – 95% do que um cabo-verdiano escreve há-de ser escrito na nossa língua (aí ninguém duvidará que a resposta à pergunta da alínea anterior é: não vale a pena penar tanto para apenas os 5% de casos em que seremos obrigados a escrever o português).

e) Por fim, estamos a falar da língua cabo-verdiana e diz-se que a Diáspora é maior do que os residentes – porque é que temos que atrelar o nosso alfabeto a um alfabeto ilógico para maçar os não residentes que não precisem do português, mas apenas conhecer a língua materna (idem com relação aos não lusófonos que venham a querer estudar o cabo-verdiano).

Se os próprios portugueses – empurrados pelos brasileiros cada vez mais musculados – estão se libertando progressivamente da vetusta canga da etimologia, não somos nós hoje (em pleno século XXI, ao estabelecermos livremente e de raiz as bases da nossa escrita) a ir meter o nosso pescoço e os dos nossos descendentes nos séculos futuros à canga do passado.

quarta-feira, 27 junho, 2007  

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